hello, world!
é a regressar que a gente se entende.
No mundo da programação, “Hello, World!” surge quase sempre como um dos primeiros desafios a superar. Um pequeno pedaço de código sem ambição particular, que não resolve problema nenhum, mas que aparece no ecrã e confirma que algo está a funcionar. Que a linguagem é compreendida e que o código corre de acordo. Serve de primeiro teste ou, se quisermos, de sanity check: a prova de que há alguém do outro lado, que sabe, pelo menos, por onde começar e que a comunicação é possível.
Parece-me um bom ponto de partida para hoje.
Não se trata de uma resolução nem de uma declaração de intenções. Também não é um regresso premeditado, anunciado em jeito de promessa. É apenas uma forma de dizer que continuo aqui. Que as coisas, na sua forma mais simples, continuam a funcionar. Que o código corre sem erros dignos de alarme e que a conexão parece estar relativamente bem estabelecida.
Em 2024, perto do fim do ano, escrevia sobre correr na passadeira. Uma obsessão particular, daquelas que não exige grande explicação, que me leva a correr durante uma hora, às vezes mais, sem objectivo palpável, a não ser o sangue, o suor e as lágrimas mentais. Gosto disso, sempre gostei. Um gesto repetido, quase automático, onde não chego a lado nenhum, mas confirmo, uma e outra vez, o sistema. O código continua a correr. A dor e o prazer misturados, a sensação de satisfação que só existe se passar pelo desconforto de não saber se vou ser capaz de não parar. Foi assim que a vida me preparou e só assim a compreendo, mas se quiserem tentar perceber o porquê, convido-vos a regressar ao passado, coisa que por estes dias tem sido por demais impossível de evitar. Já lá vamos, já lá vamos.
Desta vez, em 2025, deixei as associações à margem. Limitei-me a sentir o tempo a passar e as ideias a consolidarem-se, devagar, numa espécie de reflexão contínua no espaço. É assim que me preparo para um novo ano, sem grandes preparações, a não ser saber, no fundo, o que espero de mim, o que quero fazer pelos outros e, acima de tudo, o que fazer com o tempo que me é dado, como lembraria, aliás, Gandalf, o Cinzento.
Agora, digo-vos, posso não ser um hobbit destinado a suportar o peso de um anel demoníaco, nem a salvar o mundo da escuridão total, mas nada me impede de seguir as escrituras segundo Bilbo Baggins, para quem celebrar uma vida simples não é coisa pouca. Ok, ele disse isto enquanto celebrava o seu 111.º aniversário, portanto a sua vida simples foi também muitíssimo longa, próspera, aventureira e fantástica, como duvido que alguma vez a minha venha a ser. Ainda assim, celebro.
Sabem o que é que também é muitíssimo longo? Janeiro. Um mês optimista, sem dúvida, com os pulmões cheios de confiança e vontade. É a estrela brilhante da manhã. Carregado de malas e bagagens, chega no comboio matutino, como se soubesse algo sobre mim que eu ainda desconheço. Como se fosse óbvio que agora é o momento de começar a pôr mãos à obra, conquistar resoluções, fechar listas e cumprir promessas, daquelas que fazemos a nós mesmos, assumindo que o tempo se move, como na tela do cinema, em linha recta, e não como algo escorregadio e circular, umas vezes injusto, outras compassivo.
O mundo moderno é um mundo de suposições. Por exemplo, supõe-se que Janeiro é o mês de um novo começo, um reset, uma página em branco. Dizem-nos que é altura de olhar em frente, organizar e decidir quem vamos ser nos próximos doze meses. Não me lembro de alguma vez ter concordado com isso, mas o calendário moderno tem pouca paciência para momentos de suspensão e parece estar convencido de que é assim que se dá o pontapé de saída. E eu, sem contactos nas altas esferas do departamento de organização e planeamento de eventos de 2026, vejo-me obrigada a guardar o queixume.
Não é pessoal, acreditem. Mas parece-me sempre um assunto ao qual regressamos e do qual não conseguimos bem escapar. Há um bafio administrativo no vocabulário utilizado para descrever o primeiro mês do ano. Tresanda a corporativismo e culto de produtividade aplicado à vida interior, mas disfarçado em tons pastel que aceitamos sem questionar.
Um novo ano, um novo sistema. Novos objectivos, nova disciplina. Janeiro é, podemos dizer, um dispositivo narrativo, um marcador de tempo, como nos livros, mas também podemos vê-lo à luz dos tempos modernos, como um influencer digital. Alguém a quem a vida parece correr de feição, e que me tenta vender um estilo de vida suspeito, que, em todo o caso, nunca pedi. Bastam apenas uns minutos a fazer scroll no seu perfil para perceber que mais de metade dos posts são publicidade ou conteúdo feito para alimentar o algoritmo, sem grande espaço para minudências como personalidade livre de curadoria. Capitalizar sobre expectativas alheias, já ouviram falar? E todos caímos de beicinho no chão, a adorar a divindade.
Janeiro podia ser um híbrido entre uma influencer de moda, um chico esperto que faz dinheiro online com esquemas em pirâmide e um guru de desenvolvimento pessoal.
Em tempos, o mês recebeu o nome de um deus romano de duas faces: uma voltada para o passado, outra para o futuro. Engana-se quem julga que o seu significado reside apenas nesse dilema bifurcado. Na verdade, Janus habitava o meio; era um porteiro, de chaves na mão, testemunha do limiar e da transição, dos arcos e das portas. Esse detalhe importa-me. Janus simbolizava não tanto o progresso, mas uma mudança que não invalidava o caminho até então percorrido. Uma postura muitíssimo mais sensata, digo eu.
A dada altura, supôs-se que Janeiro deveria ser visto como um ponto de controlo moral, um gestor de projectos, alguém que impõe timelines, exige actualizações e cobra atrasos na entrega. A linguagem é emprestada do mundo do trabalho, da economia e da gestão, e o tempo transforma-se em algo externo que nos supervisiona. Uma entidade patronal a quem temos de responder. Quais súbditos condenados a provar que merecem o ar que respiram, o corpo que habitam e o dinheiro que lhes cai na conta no final de cada mês.
A minha sugestão? Ligar para o apoio ao cliente da empresa que detém os direitos de autor do calendário gregoriano e reclamar o tempo que é nosso para viver como bem nos aprouver.
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Para quem não tinha paciência para momentos de suspensão, a espera já vai longa.
Não quero estar refém deste tipo de filosofia, muito menos de chamadas não atendidas. Quero ir à sede e falar com o chefe. Às tantas, o texto de hoje é mesmo uma declaração de intenções e eu não sabia.
O que eu quero, meus amigos, é mais simples e, de alguma forma, mais difícil de justificar. Uma vida tranquila, mas rica. Rica em nuance, em lazer, em conversas, em dias que não levam a grandes feitos, mas que me fazem sentir um pouco mais humana. No panorama actual, é um grande feito. Rica em amizades que, mesmo não acontecendo com a frequência que gostaria, me parecem mais vivas apesar disso, como se a lembrança da última vez bastasse para conservar o carinho e alimentar a vontade de voltar. Afinal, é a regressar que a gente se entende. Em estar com pessoas que amo sem a sensação de que lhes estou a roubar anos de vida.
Reparem. Eu luto, como a maioria das pessoas que conheço, contra a ideia de que o meu tempo precisa de ser produtivo para ser válido, que deveria resultar em algo concreto. Mesmo quando estou a fazer coisas que adoro — a ler, a ouvir música, a ver filmes, a pensar e a conversar — lá está a voz à minha espera, estilo música ambiente de elevador. Neutra o suficiente para não a distinguir, eficaz o bastante para plantar a dúvida e o sobressalto, a perguntar para que serve tudo isto e se alguma vez me levará a algum lugar.
Marta, faz alguma coisa.
Não fizeste nada de especial esta semana. Os dias passaram e tu viste filmes e leste. Ok… e mais? Marta, devias estar a escrever. Olha a consistência. Define um plano. Cria conteúdo. Faz dinheiro. Cria mais. Dá-te com as pessoas certas. Sobe as escadas. Sê simpática. Acima de tudo, não sejas demasiado crítica. Não fiques parada no mesmo sítio durante muito tempo. Não cries atrito. Ninguém gosta de desconforto nem de conversas para as quais não há resposta. Esse tipo de conversa é inútil.
Aposta em takes minimamente consensuais e seguros. Lê mais e não te esqueças de mostrar que leste, senão não leste. Aparece mais, é imperativo; de outra maneira, és esquecida. Azar. Corre mais. Se corres na passadeira, compra um Apple Watch e atira-te às grandes corridas. Traça objectivos, sê disciplinada. Escreve um livro sobre isto ou sobre outro assunto qualquer; garante é que tens seguidores suficientes no Instagram para haver retorno. Escrever um livro para encontrares a verdade dentro de ti é uma ideia caduca. Ganha uma distinção, uma medalha, o que for. É bom para a avaliação final.
Não tenho muito mais tempo para falar contigo hoje. Há pessoas bem mais agradecidas pelo que tento fazer por ti. Já que não me dás ouvidos, deixo-te um mantra. Três palavrinhas: Marta, sê mais. Se todos conseguem, não penses que és diferente. Passar a tua vida assim é que é um desperdício.
Mas quem é que ela pensa que é, já viram o desplante? Não tenho palavras, vou ter de pedir emprestado.
Ninguém a convidou. Chega como Janeiro: cheia de certezas, mania das grandezas e sorrisos ensaiados. Mas, ao contrário do primeiro mês, faz questão de vociferar tudo num tom arrogante, como quem acha que eu estou do lado do pecado e ela do lado da santidade. Amiga, não sei se já te disseram, mas só tens garganta. Falta-te o resto do corpo. Quando tiveres pernas para andar, falamos, sim? Até lá, baixa o volume. Que eu saiba, música de elevador nunca mudou vidas.
Não deixa de ser engraçado pensar que, no mês em que damos início a um novo ano, estejamos colectivamente empenhados em regressar ao passado. Estão a par claro, ao que parece 2026 é o novo 2016. O futuro, como já falei por aqui, foi cancelado. É a euforia descontrolada da nostalgia, em voltar ao que já conhecemos, talvez porque Janus não aguentou a pressão de ser rotulado gestor de projecto e influenciador digital. Cometeu seppuku, cortou a segunda cabeça e deixou de saber onde ficaram as chaves. Agora só olha para trás.
E eu acho que nós estamos a fazer o mesmo. Não queremos dizer ou não sabemos explicar, mas suspeito que a constante cultura de optimização, comodificação e pressão para registar todos os momentos da nossa vida como assets produtivos, partilháveis e potencialmente lucrativos nos faz ter saudades de um tempo em que o mundo era mais simples, acima de tudo, divertido e um pouco mais genuíno. Claro que não é só isto. A instabilidade política, a convulsão social, o declínio dos sistemas de educação, a crise de literacia, as guerras novas e velhas, a precariedade com que se vive.
A verdade é que ninguém é assim tão nostálgico quando as coisas correm bem. Só corremos em direção ao passado quando o presente e o futuro nos parecem pouco promissores. Este olhar nostálgico para um passado não assim tão distante é o exemplo mais recente que confirma a descrença no progresso e é também sintomático da rapidez com que vivemos as nossas vidas, cada vez mais online, isto é, super-hiper-mega rápidas, onde as tendências e sub-culturas brilham tão intensamente como desaparecem, fazendo com que o cenário de há apenas alguns anos já nos pareça um país estrangeiro. A compressão da vida é tal que o espaço para existir sem sufocar se tornou quase nulo. E o resultado está à vista de todos os que querem ver.
A solução, eu acho, está no meio. Por isso, peço a Janus que se retrate e não desespere. As chaves não podem ter desaparecido; devem estar algures por aí, nós é que estamos demasiado preguiçosos e anestesiados para as procurar.
Para viver o ano que nos aguarda em todo o seu esplendor e loucura, aconselho prudência. Momentos de pausa. Um chá de camomila, uma cerveja fresquinha, talvez uma poção mágica. Vocês sabem, o reforço do sistema imunitário via dietas culturais, a rejeição consciente e saudável de tudo o que é acrítico e a esperança de que haja por aí algum hobbit, ou dois, que neste momento rumem em direção ao Mount Doom para se desfazerem de um certo anel que parece ser responsável pelas épocas de chuva e frio que não nos querem largar.
Mas já sabem, se eles estiverem mesmo a meio da epopeia, nós temos de fazer a nossa parte. Acreditar que o bem vence o mal, que o amor vence o ódio, que estar no meio e ter uma vida simples é uma bênção, e que não é uma lista de resoluções mais ou menos completa que nos vai tornar melhores pessoas. Pode ajudar na direção, sim, mas não é suficiente. É preciso o mais importante: não nos levarmos tanto a sério, não confiarmos em verdades alheias, não cedermos à nostalgia venenosa e agridoce, não depositarmos todas as nossas esperanças no novo ano. Acima de tudo, fazermos os possíveis para evitar elevadores com música ambiente suspeita.
Em 2027, depois de uns bons meses em reabilitação, Janeiro regressará para repetir o gesto, insistindo na ideia de que é um novo começo. O calendário continuará a pedir-me para definir, planear, manifestar e justificar. Tudo bem, eu compreendo, não preciso de argumentar mais. O que está feito, está feio. E o que está dito também. Talvez este mundo optimizado não seja mesmo para mim. Só quero é fazer o que estiver ao meu alcance para nunca confundir o verbo contar com o verbo viver.
Anos mais tarde, chegada ao final da vida, sei o que me espera. Uma viagem interminável num elevador espaçoso, com a tal voz irritante a perguntar-me, em tom solene e condescendente, o que conquistei. Sem saber muito bem o que dizer, rir-me-ei da minha fraca preparação para a entrevista e direi algo como: zero conquistas, calendários por preencher, algumas dores de cabeça, muitos dias simples, mas muitos dias felizes. E tu o que conquistaste? Continuas igual, falas muito, mas pernas nem vê-las.
“Goodbye, World!”






