espelho meu
há alguém mais analógico do que eu?
Pela primeira vez em sete anos, a venda de fones com fios está a aumentar. As cassetes renasceram do mundo dos mortos e estão mais modernas do que nunca. Os DVDs são os novos discos de vinil. Walkmans? Sim. Os Tamagotchis estão de volta, para cuidarmos deles, ou, mais provavelmente, para os usarmos apenas como acessórios. As revistas impressas e as zines são cada vez mais procuradas (Expresso e Público, se me estiverem a ler, estejam atentos). Apesar da conveniência dos Kindles, o carisma e a imersão dos livros físicos continuam difíceis de replicar. O mesmo vale para os blocos de notas. Neste contexto, marcas de luxo como a Miu Miu reforçam o seu papel de agentes culturais, criando terceiros espaços onde a moda dialoga com outras formas de produção artística.
O acesso ao telefone pode agora ser bloqueado por um dispositivo chamado Brick. Apesar de ligeiramente distópico, tornou-se um must-have para quem aspira a uma vida mais offline. Há até quem prenda o telemóvel à parede. Os telefones fixos reapareceram sob a forma de simulações nostálgicas para adultos e crianças. Dumb phones? Claro.
É oficial, estar online tornou-se passé.



A media física parece estar de volta. Mas importa perceber porquê e até que ponto este regresso não será apenas mais uma mutação da lógica capitalista, capaz de transformar qualquer objecto em marcador cultural pronto a consumir. Tenho as minhas dúvidas, não participasse também eu nesta vida, vamos dizer, menos digital.
Vejamos. Nunca tive AirPods, sempre fui da equipa dos fones com fios. Ando com um iPod na mala há cerca de três anos. Tenho um gira-discos à minha frente e uso câmaras analógicas. No ano passado, estive tentada a comprar um Tamagotchi e um telefone fixo. Compro, de vez em quando, revistas em papel, mas tento ser criteriosa. Tenho até uma máquina de escrever que pertencia ao meu pai, entretanto guardada por acumular demasiado pó. Quem diria? Não escrevo assim tanto, nem assim tão depressa, à máquina.
Apesar de tudo, nunca senti grande vontade de exibir ou romantizar estes hábitos como um estilo de vida aspiracional.
No filme de Wim Wenders, Perfect Days, a vida organiza-se numa repetição quase monástica: a limpeza de casas de banho públicas em Tóquio, as cassetes no carro, os CDs na sala, as fotografias repetidas das árvores, a leitura de livros já gastos. À primeira vista, parece uma vida fora do tempo, ou pelo menos fora do nosso tempo. Mas o que Wenders mostra não é apenas o valor ritualístico do quotidiano, nem uma nostalgia por uma vida mais simples, mas a construção consciente dessa simplicidade.
A vida só ganha significado quando é apresentada como ideal. Sem a imagem que a acompanha, perde parte do seu valor simbólico.
Ver Hirayama viver de forma meditativa, através da poesia visual de Wenders, da aura inimitável de Tóquio e de uma banda sonora ocidental cuidadosamente escolhida, faz-nos sentir bem. O filme funciona como um antídoto temporário à aceleração do mundo moderno, onde a vida parece cada vez mais dominada por comportamentos compulsivos, hiper-estimulantes e profundamente alienados. A questão é que, uma vez saídos da sala de cinema, aplicar esse mesmo ritmo à nossa rotina torna-se difícil. Hirayama não passa oito horas em frente ao computador, nem vive preso a notificações, reels ou à necessidade constante de transformar a própria vida em narrativa.
E ainda assim, romantizamos.
“2026 é o ano do analógico”, dizem. A palavra invadiu o meu feed: manhãs analógicas, hobbies analógicos, fins-de-semana analógicos, malas analógicas. Há uma tentativa de conferir ao termo uma aura de autenticidade, como se o analógico fosse uma solução espiritual para uma vida excessivamente mediada pelo digital.
Ao mesmo tempo, existe uma superioridade moral implícita, a ideia de que aderir a esta tendência nos aproxima de uma versão mais pura e consciente de nós próprios. Não é muito diferente da lentidão que Perfect Days evoca. A diferença é que já não estamos na sala de cinema. Estamos nas redes sociais. E aquilo que somos online aproxima-se mais da telenovela do que da sétima arte.
A ideia de “narrativa online” tornou-se uma das invenções mais lucrativas dos tempos modernos. O que começa como um comportamento aparentemente inocente — a paixão pela media física, a procura do silêncio, a tentativa de desacelerar — transforma-se rapidamente num produto visual a consumir. Já sabemos que o capitalismo abomina o vazio e a lentidão. Quanto mais acelerada for a circulação de imagens, tendências e discursos, mais eficiente se torna a circulação do capital. Essa é também a lógica estrutural das redes sociais. Neste contexto, a estética do analógico deixa de reflectir o valor de uma vida vivida offline e passa a assumir o valor das imagens que se replicam online.
Vale a pena perguntar o que queremos realmente dizer quando usamos a palavra “analógico”. A origem grega, analogikós, referia-se a uma relação proporcional entre partes. Mais tarde, passou a designar sistemas contínuos de informação. Hoje, é frequentemente usada para descrever uma atmosfera, uma “vibe”. Tornou-se uma etiqueta aspiracional que circula online e agrupa objectos que nem sempre são, tecnicamente, analógicos.
E, no entanto, todos estes objectos pertencem ao mesmo imaginário cultural. O analógico deixou de significar oposição ao digital e passou a funcionar como a sua variação estética. Afinal, é no feed que celebramos a ausência do feed. É no ecrã que ensaiamos o fora do ecrã.
Multiplicam-se, portanto, os sinais desta gramática visual: máquinas fotográficas antigas, câmaras descartáveis, discos de vinil, DVDs, VHS. Objectos que regressam menos pela função que desempenham e mais pela textura emocional e visual que prometem. Tornaram-se elementos de culto, coleccionáveis. Já não se trata apenas de consumir cultura, mas de consumir o acto de consumir cultura.
À primeira vista, poderíamos interpretar este fenómeno como uma recusa da desmaterialização digital. Mas suspeito que seja apenas uma versão mais táctil do mesmo impulso consumista.
Quando a tendência mais popular online é estar offline, o paradoxo torna-se evidente. O mundo analógico foi absorvido pela mesma máquina de circulação estética que transforma tudo em conteúdo. Aliado à cultura de nostalgia em que vivemos mergulhados, este movimento era quase inevitável.
Além do mais, este tipo de consumo está longe de ser neutro. O regresso aos suportes físicos exige condições materiais bastante concretas: espaço para guardar objectos, tempo para os utilizar e, acima de tudo, dinheiro para os adquirir. A vida analógica, enquanto estética, não é apenas uma escolha cultural; é também uma possibilidade económica. Nesse sentido, o revivalismo funciona frequentemente como marcador de classe. O objecto deixa de ser utilitário e passa a integrar uma narrativa pessoal construída e amplificada online.
Talvez a diferença mais importante esteja entre usar um objecto e encenar o seu uso. No ano passado comprei uma Kodak Charmera e tenho-me divertido a captar momentos do quotidiano de forma quase infantil. Sem planos, sem coerência estética, sem pensar na forma como essas imagens irão circular online. O mesmo acontece com os discos que ouço ou com o iPod que trago comigo. Todos temos experiências materiais que existem sem a necessidade de as validarmos em público.
No entanto, o que se tornou dominante é a encenação da experiência. O analógico contemporâneo surge muitas vezes como um estilo de vida visualmente performativo, uma curadoria de gestos. Assim, acaba por não representar um estar offline, mas um estar online com um filtro offline. Uma maneira de aparentar desaceleração sem realmente sair do sistema acelerado que a produz.
Existe também uma espécie de nostalgia sem passado. Uma nostalgia que não procura recuperar uma experiência vivida, mas produzir a imagem dessa recuperação. Não depende da memória, mas de uma linguagem visual suficientemente reconhecível para se difundir de forma industrial. E, como qualquer linguagem repetida até à exaustão, acaba por se tornar memética, padronizada e invariavelmente vazia de significado.
Durante séculos, acreditámos que a palavra organizava o mundo. Era através dela que declarávamos guerras, criávamos pactos, descrevíamos aquilo que sentíamos e dávamos sentido ao mundo. Hoje, esse papel pertence às imagens, que se tornaram a principal linguagem através da qual comunicamos. Nesse sentido, o telemóvel tornou-se o principal dispositivo de produção de imagens da nossa história, alterando profundamente a forma como experienciamos a realidade.
O smartphone condensou quase todas as experiências humanas num único objecto: música, filmes, livros, trabalho, notícias, relações, entretenimento e publicidade coexistem hoje no mesmo ecrã, sujeitos à mesma lógica algorítmica e à mesma disputa pela atenção. Neste ambiente, o contexto desaparece. Já não existe uma separação clara entre descanso e trabalho, intimidade e performance, descoberta e consumo passivo. Tudo surge diluído num fluxo contínuo de estímulos, optimizado para nos prender ao mundo online.
É também por esse motivo que o analógico se tornou tão sedutor. Numa cultura de fadiga digital, determinada pela velocidade com que as imagens circulam, os objectos físicos oferecem textura, demora, fricção e presença. Um disco precisa de ser virado. Uma câmara analógica obriga-nos a esperar até revelarmos o rolo. Um DVD termina. Um livro ocupa espaço. Existem limites materiais que interrompem o consumo infinito e devolvem espessura e memória ao tempo.
O desejo pelo analógico pode não ser uma vontade de regressar ao passado, mas uma tentativa de recuperar contexto, atenção e agência sobre a forma como experienciamos a cultura no presente. Ironicamente, são estas características que tornam o analógico visualmente apetecível para as redes sociais.
Jean Baudrillard diria que estamos perante mais um episódio de simulacro: uma imagem que deixa de representar a realidade e passa a substituí-la na produção do real. A “vida analógica” torna-se, assim, um simulacro do offline. Não é uma vida fora do digital, mas a imagem culturalmente desejável daquilo que o fora do digital deveria parecer.

Só numa cultura saturada de ecrãs é que o fora do ecrã se torna desejável. Só num ambiente de aceleração contínua é que a lentidão precisa de ser nomeada, fotografada e partilhada. O slow living, os digital detox e as manhãs analógicas operam frequentemente dentro da mesma lógica: a desaceleração torna-se performativa e a desconexão transforma-se numa experiência visível e partilhável. O que parece um gesto de contra-cultura acaba muitas vezes por regressar ao mesmo circuito de consumo que o produziu.
Compreendo o impulso, também vivo na internet. A vontade de voltar ao passado, de ter objectos com os quais podemos interagir fisicamente, experiências tangíveis, sobretudo numa altura em que menos coisas nos pertencem, é cada vez maior. Existe uma tentativa legítima de escapar à sensação de vazio que resulta de horas de scroll contínuo, atenção fragmentada e consumo sem memória.
Mas importa distinguir a relação material que temos com o mundo da sua transformação numa identidade visual pronta a circular online. A nostalgia não pode existir apenas como acessório. Não pode reduzir-se a um turismo do passado, onde se extraem imagens antigas para compor a imagem presente. Quando a moda do offline deixar de ser socialmente valorizada, quando deixar de ser trendy ouvir música num iPod ou andar com uma câmara analógica como marcador identitário, esses rituais permanecerão na nossa vida ou serão substituídos por novos objectos integrados na mesma lógica de consumo acelerado?
O critério tem de ser outro. A questão não é saber se somos mais ou menos analógicos. A questão é perceber porque é que, num contexto saturado de imagens, o analógico se tornou simultaneamente confortável e rentável dentro de um sistema que, à partida, o recusa. O meu palpite é que o analógico contemporâneo não constitui uma alternativa ao digital, mas uma das suas mutações mais eficazes. O offline deixou de ser um lugar e passou a funcionar como uma categoria estética.
Jean-Paul Sartre ficou conhecido por várias coisas, entre elas a ideia de que a existência precede a essência. Primeiro existimos, depois inventamo-nos. Ao contrário dos objectos, cujo propósito é definido antes de existirem, nós não nascemos com um guião fixo nem com uma natureza definitiva que nos diga quem devemos ser. Essa liberdade, que é ao mesmo tempo leveza e responsabilidade, é também aquilo a que tentamos tantas vezes escapar.
Se antes a religião oferecia pistas sobre o sentido da vida e da identidade, numa sociedade cada vez mais secular, hoje “Deus” está noutros lugares: nos livros de auto-ajuda, nos influenciadores, nos psicólogos de Instagram, nos podcasts, nas estéticas digitais que prometem definir o eu através da imagem.
O problema começa quando aquilo que podia servir apenas de referência passa a funcionar como prescrição. Quando as tendências e as categorias deixam de descrever os nossos comportamentos e começam a defini-los. E em vez de nos ajudarem a pensar quem somos, começam a substituir esse processo e a tornar-nos, a cada dia, menos livres.
No fundo, estamos a trocar a inquietação da liberdade pelo conforto e validação dos rótulos. Mas qualquer tentativa de reduzir a vida humana a uma categoria estética ou a uma narrativa coerente acabará sempre por deixar de fora tudo aquilo que nos torna realmente especiais: a imprevisibilidade, a incerteza, a possibilidade de sermos outra coisa ainda por definir e, sobretudo, não dependermos de uma imagem para sermos reais.
Então, a pergunta que devo fazer é outra: espelho meu, há alguma imagem mais real do que eu?










Espectacular. Que texto incrível. ❤️❤️❤️
Incrível, Marta!
Creio que o que nos seduz no analógico é a perseguição da pessoa que gostavámos de ser e que, novamente, achamos que conseguimos ser após o ato de adquirir alguma coisa. "Eu vou ser mais feliz quando tirar fotografias numa máquina analógica", "Eu vou ser mais interessante quando ler no metro", "Eu vou ser mais misteriosa quando ouvir música em wired headphones (em vez de airpods) e fumar cigarros (em vez de iqos)". Acredito que é apenas uma tendência, que passa e deixa um rasto de desperdício material atrás, porque é profundamente performativo - para se ser analógico, pode-se simplesmente ser analógico sem ter um welcome kit com uma cópia d'O Estrangeiro, uma kodak e um mp4 que só toca Spice Girls. Queremos que nos vejam como aquilo, mesmo que seja potencialmente entediante para nós ter aqueles hábitos e viver aquela vida de curadoria tão minuciosa.
Quando for novamente cool publicar fotografias no instagram e falar pelos cotovelos, tenho a certeza que a febre do misterioso e análogico vai ser só uma lembrança distante.