martyr supreme
agora percebo, fomos Safdieminados.
Ora, vejamos. Estou muito longe de ser crítica de cinema, mas muito perto do fascínio profundo que me toma de assalto sempre que entro numa sala escura, de olhos colados à tela. Há filmes que me ajudam a perceber quem sou; outros confrontam-me com realidades jamais imaginadas, verdades difíceis, truques de magia, personagens detestáveis por quem, ainda assim, acabo por torcer. Há universos sem fio condutor, sonhos espalhados pelo subconsciente do próprio filme, que ardem até ao último cartucho.
E depois existem aqueles momentos raros em que o cérebro parece iluminar-se. Saímos da sala a flutuar como uma pluma, como se a substância que acabámos de consumir tivesse substituído o ego por uma euforia que nos faz amar o mundo inteiro depois de testemunharmos tamanha beleza e delírio. Exageros, bem sei. Um vício, talvez. Mas no cinema, eu quero é nirvana.
Aos filmes reservo um espaço especial na minha vida. Não apenas por ter sido através deles que aprendi a conhecer-me, mas porque me ensinaram a ler o mundo: de que matéria é feito, como se move, como se organiza; como caminham as pessoas que lhe dão forma; e que histórias inventamos para negociar o caos da existência.
Por isso mesmo, sempre que vejo um filme que me desilude, faço um esforço por perceber porquê. Chego a ir, como foi o caso, mais do que uma vez ao cinema ver o objecto da indignação. É que há sessões em que a substância não é bem processada e saímos agitados, transtornados ou obsessivamente dedicados a esmiuçar o que acabámos de ver, na esperança de que isso nos ajude a compreender o que sentimos. Esta é a minha tentativa de perceber por que razão um filme tão aclamado pelo seu caos e ousadia me deixou confusa, desapontada e aborrecida.
Não deixa de ser curioso constatar que um mesmo filme pode ser um objecto tremendamente amargo e vazio para uma pessoa e, para outra, deliciosamente vertiginoso e divertido. Quando comecei a escrever a newsletter de hoje, cruzei-me com uma partilha do João Lameira que parecia indiciar a sensação que eu própria tinha. Teremos sido vítimas de uma movie bad trip?
Desde que vi Marty Supreme, fiquei dividida. Por um lado, admiro a forma, reconheço o domínio técnico, o artifício, a ousadia de um cinema que recusa estruturas confortáveis. Por outro, sinto-me frustrada. Falta-lhe qualquer coisa. Josh Safdie sabe criar movimento, energia, vertigem, mas a anatomia da história e o estudo do protagonista que desenvolve ao longo de duas horas e meia nunca me chegou a convencer.
O filme vive num estado de pulsação constante, como se estivesse sempre prestes a sair de controlo. Mas a pergunta impõe-se cedo, passada a primeira meia hora: o que sustenta esse movimento? A intensidade parece servir apenas de distração, para não termos espaço para perguntar onde estão as coisas que dão corpo e textura à história: a motivação, a consequência, o conflito interno. Em vez de convicção, há aceleração. Em vez de conflito, ruído. Em vez de consequência, acumulação. Marty Supreme apresenta-se como mais do que um filme-espectáculo, mas nunca passa disso.
O filme começa como um filme de desporto e rapidamente abandona aquilo que faz os filmes de desporto funcionarem. Marty, interpretado por Timothée Chalamet, é um astro em ascensão do ténis de mesa na década de 50, tão determinado em conquistar o sucesso que não hesita em sacrificar tudo e todos à sua volta para chegar onde quer. À sua volta ficam os destroços: a melhor amiga de infância, Rachel (Odessa A’zion), que engravida e abandona; Kay Stone (Gwyneth Paltrow), estrela de cinema rica, mas esquecida por Hollywood, seduzida e usada; a mãe, Rebecca, interpretada por uma Fran Drescher subaproveitada, que o filme insiste em caracterizar como manipuladora sem nunca o demonstrar. Há ainda Wally, o amigo taxista (um igualmente subaproveitado Tyler, The Creator) que alinha nos esquemas de Marty e Dion, o amigo artista que convence o pai a investir num kit de bolas de ténis de mesa alaranjadas.
Rapidamente percebemos que Marty trata o ténis de mesa apenas como um acessório ao serviço do próprio ego e não como uma paixão que respeita ou ama. Vagamente inspirado na vida de Marty Reisman, surge como uma personagem assumidamente egoísta e o filme parece gostar disso. Quanto mais cruel ou irresponsável ele é, mais somos convidados a admirá-lo. O problema é que a amoralidade, apesar de poder ser divertida, não cria complexidade por si só.
Marty nunca ultrapassa essa condição-tipo. Age por impulso, movido por um certo complexo de inferioridade que nunca chega a ser explorado. O que o move permanece difuso e as suas vitórias parecem pouco merecidas. A comparação com outras personagens torna-se inevitável. Pensei várias vezes em Catch Me If You Can (2002). O protagonista Frank Abagnale Jr. também mente e manipula, mas o seu charme nasce da inteligência, das motivações e das relações que constrói ao longo da trama. Marty não seduz ninguém por muito tempo, nem sequer o espectador. A ansiedade que o filme tenta gerar vem quase exclusivamente da velocidade da montagem e da música.
É, afinal, a escola dos irmãos Safdie. O filme quer induzir stress e caos, mas, ao contrário de Uncut Gems (2019), onde a claustrofobia vinha de um guião mais rigoroso e de um Adam Sandler errático mas introspectivo, em Marty Supreme sinto muito pouco, tirando alguns momentos bem humorados antes de regressarmos à confusão. Não há risco real. As ações não têm peso. As conquistas acumulam-se sem significado. O movimento constante do enredo limita-se a esconder um guião frágil e pouco trabalhado. O filme quer ser tudo em todo o lado ao mesmo tempo e no cair do pano, acaba a impor a redenção do anti-herói de forma atabalhoada, irrealista e piegas.
Se Benny Safdie, em The Smashing Machine (2025), revela um impulso construtivo e vagaroso, ainda que imperfeito, Josh Safdie parece operar no sentido oposto, menos interessado em construir do que correr e acumular. O enredo solto parece não ter fim e os sub-enredos desaparecem sem resolução. As ideias surgem porque podem surgir e há muuuuuitas ideias no ar. Uma imagem substitui a outra: a transição do óvulo para a bola de ténis de mesa; um corpo judeu barrado em mel (baseado numa história verídica); uma explosão numa bomba de gasolina; uma partida com um leão-marinho; um pedaço retirado das Pirâmides de Gizé como presente à mãe e lembrança do Êxodo bíblico; uma banheira a cair num hotel decadente; as bolas alaranjadas tão importantes, descartadas numa cena sem história; um mafioso à procura de um cão; um esfaqueamento; tiros de caçadeira; uma porca como insulto antissemita; um bebé como promessa maior para o sentido da vida.

Há momentos que quase funcionam. Gwyneth Paltrow traz calor e melancolia. O controverso e extravagante Abel Ferrara introduz, por breves instantes, uma sensação de perigo real. A música original de Daniel Lopatin cria uma estranheza interessante, mas acaba abafada pelas canções New Wave dos anos 80 que colidem deliberadamente com a estética dos anos 50. O anacronismo funciona como assinatura autoral, mas também soa um bocadinho forçado. O que não impede que eu tenha gostado de ouvir Alphaville, Peter Gabriel ou Tears for Fears no grande ecrã.
O melhor aspecto do filme é sem dúvida o trabalho de Jack Fisk que colaborou com David Lynch em Mulholland Drive (2001) e Paul Thomas Anderson em There Will Be Blood (2007), na recriação da década de 1950. As ruas, os apartamentos, a loja de sapatos e os clubes parecem saídos directamente da Nova Iorque da época, são vívidos e credíveis. O mesmo pode ser dito do costume design, a cargo de Miyako Bellizzi, rigoroso e expressivo do status social das personagens e executado com precisão histórica. Os outfits das cenas em que estão em competição estão on point!






Nada do que digo é culpa de Timothée Chalamet. Pelo contrário, acho que se entrega ao papel numa interpretação musculada onde encontra momentos de magnetismo. Se Marty não é um vazio absoluto, deve-se a ele. O problema é que Chalamet actua num espaço onde tudo o resto existe apenas em função do protagonista. As personagens secundárias são acessórios narrativos: orbitam em torno da história e agem de formas que desafiam a lógica apenas para facilitar os esquemas do miúdo encantadoramente insuportável. O mundo dobra-se para que ele avance. Os contratempos mal se fazem sentir e a narrativa recompensa-o sempre, à excepção de umas palmadinhas no rabo vindas de Kevin O’Leary, que, já perto do fim, se declara vampiro, uma ameaça caricata que supostamente sinaliza o perigo de Marty insistir em ganhar a partida durante o evento no Japão. Por amor de deus.
A cena dos créditos iniciais é gira e lembra o que Amy Heckerling já tinha feito em Look Who’s Talking (1989), mas também a fórmula de introdução inesperada como feito em Uncut Gems (2019), com a colonoscopia de Adam Sandler. Há ainda uma cena a preto e branco em que recriam a chegada do némesis Koto Endo, depois de vencer Marty, ao Japão que achei curiosa e divertida.
A meio do filme, quase esqueci que existia um destino final, um adversário, um objectivo concreto. As sequências de competição, que poderiam ser tensas e íntimas, tornam-se secundárias. Apesar de bem gravadas, não sentimos a urgência da vitória nem o peso da derrota. O talento de Marty serve apenas para justificar a sua arrogância e empurrar a narrativa com a barriga para a cena seguinte. Talvez o propósito fosse apenas provar que conseguia. O quê, exactamente, nunca chegamos a perceber.
Marty Supreme é espetáculo que se faz passar por algo maior. A intensidade esconde o vazio. Muitas pontas soltas, filme longuíssimo e um final fraco deixaram-me insatisfeita, mas que é imaginativo, lá isso é. Onde Uncut Gems usava o caos para construir ímpeto e carácter, onde Catch Me If You Can tornava a ambiguidade moral entusiasmante, Marty Supreme oferece caos sem consequências, manipulações sem tensão e vitórias sem sentido. Ver o filme torna-se mais exaustivo que estimulante, como uma droga que acelera tudo à nossa volta, mas nunca nos leva a lado nenhum.
Tudo isto para chegar ao fim e vos dizer: sim, é um filme porreiro, mas não é mais do que isso. É até um pouco pateta se considerarmos a cena final que me deixou laughing out loud 🫠.
Em nenhum momento vemos Marty demonstrar interesse real pelo bebé de Rachel, aliás o próprio chega a afirmar que “it's a biological impossibility that that kid is mine, okay?”. Não há pistas de que seja capaz de sentir algo por alguém, compaixão, empatia ou sequer amor, já que toda a sua energia é canalizada para alimentar a soberba e o propósito maior que acredita ter. E mesmo assim, o filme decide terminar regressando à cena inicial, com uma epifania completamente imerecida, tirada de lugar nenhum, que só me fez sentir que o efeito da droga tinha passado e era altura de arrumar as malas e partir. E assim foi.
Talvez tenha de ver o filme mocada para perceber o quão genial é. Ou talvez precise de o ver daqui a 10 anos, com o efeito romântico da nostalgia. Se já o viram e discordam a 100% de mim, expliquem-me lá o hype porque eu, sinceramente, não entendi.
No cinema, eu quero é nirvana, mas desta vez, só encontrei samsara.



Eu gostei do filme, apesar de reconhecer que a máquina que funcionava tão bem no Good Time e no Uncut Gems se está a escangalhar (ou a sair dos carris, para misturar analogias). Tem ideias a mais e quer ser demasiadas coisas e depois aquilo não liga lá muito bem.
Mas, para mim, é parte da graça. É um filme-espectáculo, um filme-feira, surreal e desmedido. Apostaria até que o vazio que sentes é propositado. Disto isto, estava completamente investido na história, ia levantando o punho quando ele ganha o jogo no fim.
(Desde que vi o Go Get Some Rosemary no IndieLisboa de 2010 que sou quase incondicional dos Safdie — dos que vi, só não gosto do Heaven Knows What.)
Também me senti dividido e acabei por optar pelo Valor Sentimental, que recomendo :)